Aglutinador

Penso na necessidade minimalista de experimentar o objeto, e não simplesmente imaginá-lo e pré-concebê-lo. Essa imagem anterior à experiência, que podemos dominar no interior de nossa racionalidade, não corresponde ao que a experiência em si mostra. A concepção anterior ao objeto vem como que num momento culminante em que ele, o objeto, se esclarece em nossa mente, sem sombras e sem as sujeiras do mundo. É quase um congelamento. Mas ninguém pode afirmar que o objeto é aquilo sem ir a seu encontro. E a experiência do encontro não entrega seus vetores para que os dominemos. Pelo contrário, nós nos tornamos mais um vetor que deixa tudo ainda mais imprevisível. Assim que arte deixa de se tornar imagem para ser relação. Vai-se embora a nossa ilusão de domínio e entra a surpresa do outro. Isso mesmo, mais que objeto, a obra se torna um outro.

 

Isso afirma a Fenomenologia da Percepção de Merleau-Ponty. A percepção acontece na experiência e não na imagem anterior a ela. Isso afirma uma escultura sem título de Robert Morris de 1965, que parte de uma forma modular semelhante a uma grande letra L. São três desses Ls de compensado e, apesar das três formas serem idênticas, elas estão em diferentes posições com relação ao chão da galeria. É surpreendente que uma simples troca de posição altera cada uma das formas, já que, por mais evidente que os Ls pareçam idênticos, eles se comportam de maneiras muito diferentes. Por mais que a mesma forma em pé e deitada pareçam iguais, elas não são. Ou acabam não sendo.

 

Não podemos transportar a experiência, mas dividi-la. A experiência assim deixa de ser experimento, em que há controle, passando a ser insubstituível. A idéia de isolar a obra e transpô-la, como se continuasse sendo a mesma, morre. A obra estará transformada e terá significados totalmente diferentes pelo seu contexto e, além disso, influenciará este contexto, numa relação mútua que é a relação que se tem com um outro. Assim que o tempo é mais uma das dimensões da arte, e o tempo é único e improrrogável. Assim que o que dá sentido para este tempo somos nós, e muito provavelmente algo existiria sem nós, mas com certeza seria outra coisa, inimaginável.

 

Julio Meiron